O despertar da natureza · Rua das Cássias, Vilamoura The awakening of nature · Rua das Cássias, Vilamoura
Os pinheiros, essas nossas árvores companheiras e amigas, serenas, majestosas, eretas e resistentes, abraçadas na sua irmandade de grupo e em comunhão, como se fossem um exército de discretos sofredores, abnegados combatentes, impávidos à tormenta e à borrasca, mas sempre afáveis e dando abrigo aos seus moradores e vizinhos, mas também gentis na sua solidão, solitários e impávidos, recolhidos na contemplação.
Tudo neles é força, é verticalidade, é dignidade, é resistência, é perseverança. Como uma permanente lição de vida, de otimismo incansável, mesmo por ali, quando abandonados ao acaso, entregues ao esquecimento, testemunhas resistentes inaudíveis que alguém ali colocou ou plantou e se esqueceu depois de rever, de lhes dar alento, de lhes dar um abraço, como eternos mendigos a dormirem ao relento dos tempos.
Os anos passam, mas eles ali permanecem, como se nada fosse, como se nada tivesse acontecido ou estivesse para acontecer. Nós, passeantes distraídos, ou até à janela da manhã a ver o sol nascer, é como se fosse um abraço da natureza. Desconhecemos a sua história, os seus progenitores, um interlúdio temporal a aguardar talvez o punhal da destruição, essa arma cortante da traição de César, mas talvez a aguardar um outro punhal, cigano e transformador, numa elegíada ao mistério e ao sagrado.
O indivíduo é o grupo, este, no entanto, só existe na própria existência do indivíduo, mas que se moldam entre si, numa vida de um para o outro, como numa osmose que se entrelaça apagando ou atenuando as diferenças separadoras. O pinhal é união, é obstinação, é revelação.
Os anos vão passando e quando de novo as toalhas de praia coloridas se estendem nos varandins à espera dos primeiros raios solares que espreitam por entre os seus ramos, olhamo-nos mutuamente maravilhados e em surpresa. Que bênção os colocou ali, que intenção os quer agora destruir?
Ganharam com os anos direito à liberdade, à carta de alforria, a serem por si próprios, a seguirem o seu caminho da redenção. Sem rebentos ou herdeiros — alguém jamais viu por ali um pinheiro pequeno? — talvez sem terem mesmo o direito de procriarem, como numa vaga monocórdica, ou unissexo do absurdo da garganta da morte.
Não há árvore que mais mereça o nosso sonho, que mais mereça ser resgatada à condenação do sacrifício inelutável, que mais se pareça connosco. Todos os pinheiros nos podem sobreviver, muito para além de nós próprios, porque a ameaça se transformou afinal num elixir à sua vida eterna.
Só eles falam entre si, se protegem entre si, se regeneram entre si. Vamos dar-lhes um nome, o nosso próprio nome, ou de outro ou alguém ou ninguém, porque ao fazermos assim dizemos bem alto o nosso obrigado por permaneceram ali à nossa espera com paciência até acordarmos para a vida e de fazermos finalmente a comunhão regeneradora que há tanto tempo esperam.
A proposta de reordenação do ambiente paisagístico ou mesmo de requalificação do Pinhal da Rua das Cássias da Arquiteta Paisagista Inês Gonçalves é uma oferta pessoal à Câmara Municipal de Loulé e tem o propósito de conseguir alterar as expetativas municipais — através da construção de mais um edifício em terreno público —, para, em contrapartida, com sentido comunitário, ao encontro dos melhores desejos e expetativas ambientalistas, recuperar integralmente o local tanto através da plantação de novas árvores ou arbustos como de lhe dar um perfil de parque moderno de esculturas onde se possa confirmar a manutenção de um dos últimos redutos paisagísticos de Vilamoura.
Estudo prévio · Arquiteta Paisagista Inês Gonçalves
The pine trees, our companion and friendly trees, serene, majestic, upright and resilient, embraced in their brotherhood and communion, as if they were an army of discreet sufferers, selfless fighters, undaunted by storm and squall, yet always kind and sheltering to their residents and neighbours, gentle in their solitude, solitary and fearless, gathered in contemplation.
Everything about them is strength, verticality, dignity, resistance, perseverance. Like a permanent lesson in life, of tireless optimism, even there, when abandoned to chance, surrendered to oblivion, inaudible resistant witnesses whom someone placed or planted there and then forgot after reviewing them, giving them encouragement, giving them an embrace — like eternal beggars sleeping in the open air of time.
The years pass, but they remain there, as if nothing had happened or were about to happen. We, distracted passers-by, or even at the morning window watching the sun rise — it is as if it were an embrace from nature. We do not know their history, their progenitors, a temporal interlude awaiting perhaps the dagger of destruction.
The individual is the group; yet the group only exists in the very existence of the individual, moulding each other in a life from one to another, like an osmosis that interweaves, erasing or attenuating the separating differences. The pine grove is unity, it is stubbornness, it is revelation.
There is no tree that more deserves our dream, that more deserves to be rescued from the condemnation of inevitable sacrifice, that resembles us more. All the pine trees can outlive us, far beyond ourselves, because the threat has finally transformed into an elixir of their eternal life.
The proposal for the reordering of the landscape — indeed the requalification — of the Pine Grove of Rua das Cássias, by Landscape Architect Inês Gonçalves, is a personal offering to the Loulé Municipal Council. Its purpose is to change the municipal expectations — set on building yet another structure on public land — and instead, in a spirit of community and in line with the best environmental hopes, to fully restore the site: both by planting new trees and shrubs and by giving it the character of a modern sculpture park, securing the preservation of one of the last landscape strongholds of Vilamoura.
Preliminary study · Landscape Architect Inês Gonçalves